Overtrading: como reconhecer e revisar suas operações

Ilustração sobre overtrading no artigo do Exactly Moment.

Overtrading é operar mais do que a sua estratégia justifica, e quase todo iniciante passa por isso sem perceber. Por fora, parece dedicação: muitas horas de tela, muitas entradas, muita atividade. Por dentro, a conta vai sendo corroída por custos, cansaço e decisões de baixa qualidade que ninguém anotou.

Como saber se você está fazendo overtrading

Não existe um número mágico de operações por dia. Um scalper pode fazer 20 entradas bem planejadas, enquanto um swing trader que faz 5 por semana já pode estar exagerando. O critério não é a quantidade em si, mas a relação entre as operações feitas e as oportunidades que o seu método realmente oferece.

Um teste simples: pegue a descrição do seu setup e conte quantas vezes, em média, ele aparece por dia no ativo que você opera. Se o seu setup surge umas três vezes por sessão e você faz doze operações, as outras nove vieram de algum lugar que não é o plano. Esse excesso é o overtrading.

Alguns sinais práticos costumam acompanhar o problema:

  • Você não consegue explicar, uma hora depois, por que entrou em várias das operações do dia.
  • O número de operações aumenta nos dias de prejuízo.
  • Você se sente inquieto quando o mercado fica parado e procura “alguma coisa” para fazer.
  • A sessão termina e você está mentalmente exausto, mesmo sem ter feito nada fora do comum.

Os três motores do overtrading

Em quase todas as contas que já revisei, o excesso de operações tem uma de três origens. Entender qual é a sua muda o remédio.

TipoQuando apareceComo se parece
RevancheLogo depois de uma perdaEntrada imediata, lote maior, setup incompleto
TédioMercado lateral e sem volumeOperações pequenas “só para participar”
EuforiaDepois de dois ou três ganhosSensação de estar “lendo tudo”, critérios afrouxados

A revanche é a mais perigosa, porque combina pressa com lote maior. O tédio é o mais silencioso, porque as perdas são pequenas e passam despercebidas. A euforia engana porque começa em um momento bom e termina devolvendo tudo.

Vale notar que os três podem aparecer no mesmo dia. Um pregão típico de excesso começa com uma perda, segue com duas entradas de revanche que por acaso dão certo, e termina com uma série de operações eufóricas no fim da tarde. No final, o saldo é negativo e o trader nem lembra direito da primeira operação, que foi a única feita dentro do plano.

Quanto o overtrading custa em números

Vamos ao exemplo. O Pedro opera ouro (XAU/USD) e tem US$ 2.500 na corretora. O custo médio de cada operação, somando spread e comissão, é de US$ 4 no lote que ele usa. Nos dias normais, ele faz umas 6 operações. Nos dias de revanche, chega a 25.

Em um mês com 18 pregões, supondo 12 dias normais e 6 dias de revanche, ele faz 12 × 6 + 6 × 25 = 222 operações. Só de custos, isso dá 222 × US$ 4 = US$ 888, mais de um terço da conta. Se ele tivesse ficado nas 6 operações por dia em todos os pregões, seriam 108 operações e US$ 432 de custo. A diferença, US$ 456, sai do bolso antes mesmo de considerar se as operações extras ganharam ou perderam.

E, na prática, as extras perdem mais. São feitas em estado emocional pior, fora do setup e muitas vezes no horário de menor liquidez. O custo total do overtrading costuma ser bem maior que a conta dos spreads. Para entender melhor como spread, comissão e alavancagem pesam no resultado, o guia sobre corretoras, alavancagem e margem detalha cada componente.

Como revisar suas operações para cortar o excesso

A revisão é onde o problema fica visível. Sugiro um método em três passos, feito com as últimas 50 operações, porque uma amostra menor pode enganar.

Primeiro, classifique cada operação como “setup completo” ou “fora do setup”, sem olhar o resultado. Segundo, some o resultado de cada grupo separadamente, já com custos. Terceiro, marque o que aconteceu imediatamente antes de cada operação fora do setup: uma perda, um período parado, uma sequência de ganhos. Esse terceiro passo mostra qual dos três motores está por trás do seu overtrading.

Não se assuste se o resultado for feio. Na primeira vez que fiz esse exercício, anos atrás, descobri que quase 40% das minhas entradas estavam fora do setup, e que elas respondiam por praticamente todo o prejuízo do trimestre. Ver isso escrito em uma planilha doeu, mas foi o que me fez parar de culpar o mercado e começar a mexer no que estava ao meu alcance.

Com o diagnóstico em mãos, a correção fica objetiva. Quem sofre com revanche pode adotar uma pausa obrigatória de 30 minutos depois de cada stop. Quem opera por tédio pode definir um horário de encerramento mais cedo. Quem cai na euforia pode limitar o número de operações por dia ao dobro da média do setup. Se a sua regra de entrada ainda é vaga demais para permitir essa classificação, vale revisar o guia de estratégia de trading e deixar os critérios mais precisos.

Operar em excesso também multiplica a exposição a um risco que já é alto quando existe alavancagem. Quem está começando pode consultar o Portal do Investidor da CVM, um canal oficial de orientação sobre o assunto.

Armadilhas frequentes

  • Achar que mais operações significam mais chances de ganhar, ignorando que cada entrada também é uma chance de perder e um custo fixo.
  • Medir o próprio esforço pelo tempo de tela e pelo número de cliques.
  • Reduzir o lote para “compensar” o overtrading, em vez de reduzir o número de operações.
  • Revisar só o resultado financeiro do dia e nunca a quantidade de entradas.

Para praticar

  1. Conte quantas vezes o seu setup apareceu em cada um dos últimos 10 pregões e compare com quantas operações você realmente fez. Anote a diferença dia a dia.
  2. Refaça a conta do Pedro com os seus próprios custos: quanto você pagou de spread e comissão no último mês e qual fatia da conta isso representa?
  3. Defina um teto de operações por dia e, durante duas semanas, registre em que momento do pregão você sentiu vontade de ultrapassá-lo e o que tinha acabado de acontecer.

O que fica

  • Overtrading é a diferença entre as operações que o seu método oferece e as que você faz.
  • Revanche, tédio e euforia são os três gatilhos mais comuns, e cada um pede uma regra diferente.
  • Custos de transação sozinhos já podem consumir uma parte grande da conta quando o volume dispara.
  • Revisar as últimas 50 operações separando setup completo e fora do setup revela o tamanho do problema.
Aviso de riscoEste conteúdo é exclusivamente educacional e não constitui recomendação de investimento. Operar nos mercados financeiros envolve risco de perda total do capital. Resultados passados não garantem resultados futuros. Leia o aviso completo.

Comments

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *