Como Montar uma Estratégia de Trading e Testá-la a Sério

Diagrama dos blocos de uma estratégia de trading: mercado, contexto, entrada, stop, alvo e revisão.

Uma estratégia de trading é um conjunto de regras suficientemente claras para que duas pessoas diferentes, a olhar para o mesmo gráfico, tomem a mesma decisão.

Neste guia

Esse é o teste. Se as suas regras permitem que hoje entre e amanhã, na mesma situação, não entre, ainda não tem uma estratégia — tem um estilo. E estilos não se conseguem testar, o que significa que nunca saberá se funcionam.

Este guia percorre o processo inteiro pela ordem em que se faz: definir, filtrar, testar e só depois operar.

O que uma estratégia não é

Não é um indicador. “Compro quando o RSI está em sobrevenda” não é estratégia — é um gatilho solto, sem contexto, sem saída e sem gestão. Vai gerar dezenas de sinais por semana e a maioria não vale nada.

Também não é um conjunto de boas intenções. “Opero quando há tendência clara” parece regra mas não é: o que é uma tendência clara? Quantos topos ascendentes? Em que tempo gráfico? Se não conseguir responder com números, não é verificável.

Uma estratégia completa responde a seis perguntas, sempre as mesmas:

  1. Que mercado opero, e a que horas?
  2. Em que tempo gráfico tomo a decisão?
  3. O que tem de estar presente para eu considerar uma entrada?
  4. O que me faz descartar essa entrada, mesmo que o resto esteja lá?
  5. Onde entro exatamente, e onde admito que estava errado?
  6. Onde saio quando corre bem?

Escolher o terreno

Antes das regras, o terreno. E aqui a maioria das pessoas faz ao contrário: monta a estratégia e depois procura onde aplicá-la.

Um mercado, no início. Cada ativo tem personalidade — o ouro não se comporta como um índice, que não se comporta como um par de moedas. Conhecer um a fundo vale mais do que conhecer seis superficialmente. Escolha um, fique com ele seis meses.

O tempo gráfico segue a sua vida, não o contrário. Quem trabalha durante o dia não pode operar em cinco minutos, por muito que queira. Não é questão de técnica: é não estar lá quando o sinal aparece. O gráfico de quatro horas ou o diário perdoam ausências; o de cinco minutos não perdoa nenhuma.

O horário é uma regra, não um detalhe. Os mercados mudam de carácter ao longo do dia. Há períodos de movimento e períodos mortos, e operar nos mortos com regras desenhadas para os outros produz perdas sem que nada esteja tecnicamente errado.

Condições, filtros e confluência

Há duas listas a escrever, e a segunda costuma ser esquecida.

A lista do que tem de estar presente: a tendência definida segundo o seu critério, o preço numa zona que já importou antes, e um sinal de price action nessa zona. Três coisas chegam. Estratégias com sete condições quase nunca disparam, e quando disparam a pessoa já desistiu de esperar.

A lista do que invalida: notícia de impacto nos próximos minutos, volatilidade fora do normal, mercado lateral quando a estratégia é de tendência, ou estar fora do horário definido. Mesmo com tudo o resto perfeito, se um destes aparecer, não há operação.

Esta segunda lista é o que separa uma estratégia madura de uma lista de desejos. Qualquer pessoa consegue dizer quando quer entrar. Saber dizer quando não entra, com o sinal à frente dos olhos, é outra coisa.

Confluência é quando vários fatores independentes apontam ao mesmo sítio: a tendência é de alta, o preço recuou até um suporte que já foi respeitado, e ali aparece rejeição. Não garante nada — nada garante — mas concentra as probabilidades.

Cuidado com o excesso: procurar confluência de seis fatores leva a esperar a operação perfeita, que aparece uma vez por mês e normalmente também falha.

O checklist

Ponha as regras numa folha ao lado do ecrã, em forma de perguntas de sim ou não. Se alguma for “não”, fecha o gráfico.

Antes de entrar: estou no horário definido? A tendência está clara no meu critério? O preço está numa zona que marquei antes? Apareceu o sinal que defini? O stop cabe no risco que aceito? O alvo dá pelo menos a relação mínima? Há notícia nos próximos trinta minutos?

Antes de sair: saio por alvo, por stop, ou porque mudei de ideias? Se for a terceira, pare e escreva porquê.

Parece burocrático. É precisamente esse o objetivo — retirar a decisão do momento em que está com dinheiro em risco e pô-la num momento em que está calmo.

Testar antes de arriscar dinheiro

Uma estratégia por testar é uma suposição. E o teste não precisa de software: faz-se com o gráfico e uma folha.

Backtest manual. Recue no gráfico até um ponto do passado, tape o que está à direita, e avance período a período como se fosse hoje. Sempre que o checklist der todos os sins, registe: data, entrada, stop, alvo, resultado. Vai ser tentado a espreitar o que vem a seguir. Se espreitar, o teste não vale nada.

Quantas operações? Cinquenta é o mínimo para começar a ter uma ideia. Cem é onde os números ficam razoáveis. Com dez, está a olhar para sorte.

Depois há quatro números a calcular, e cada um diz uma coisa diferente:

Número Como se calcula O que revela
Taxa de acerto Ganhos ÷ total Pouco, sozinha. 40% com bom retorno bate 70% com mau
Profit factor Soma dos ganhos ÷ soma das perdas Acima de 1 é positivo. Acima de 1,5 é sólido
Drawdown máximo Maior queda do pico ao fundo Se não aguentaria vê-lo na conta real, a estratégia não é para si
Expectativa (%acerto × ganho médio) − (%erro × perda média) Quanto rende, em média, cada operação

O drawdown é o que mais gente ignora e o que mais contas destrói. Uma estratégia com expectativa positiva e drawdown de 35% é matematicamente boa e humanamente insuportável para a maioria. Abandona-se a meio da queda, precisamente antes da recuperação.

Quando mudar, e quando não mudar

Esta é a parte difícil, porque as duas situações parecem iguais por dentro.

Não mude depois de três ou quatro perdas seguidas. Sequências assim são estatisticamente esperadas em qualquer sistema com 50% de acerto — acontecem, não significam nada, e mudar aí é reagir a ruído. Se trocar de estratégia sempre que isto acontece, vai passar a vida a começar do zero.

Mude quando houver razão estrutural: o mercado mudou de regime de forma duradoura, ou o backtest tinha um defeito que só se vê na prática, ou o drawdown real ultrapassou bastante o que os testes mostravam.

Um critério simples: só altero regras depois de trinta operações reais e com o registo à frente. Antes disso, cumpro o que está escrito.

A sua primeira estratégia, em nove linhas

Junte tudo numa folha só:

  1. Opero ___, entre as ___ e as ___.
  2. Decido no gráfico de ___.
  3. Considero que há tendência quando ___.
  4. Marco as zonas assim: ___.
  5. Entro quando acontecer ___ numa dessas zonas.
  6. Não entro se ___.
  7. Stop em ___. Risco de ___%.
  8. Alvo em ___, mínimo 1:___.
  9. Testo cem operações antes de arriscar dinheiro.

Vai parecer simples demais. As que funcionam quase sempre são.

Ver também

Fontes e leitura adicional


Conteúdo educacional; não constitui recomendação de investimento.

Aviso de riscoEste conteúdo é exclusivamente educacional e não constitui recomendação de investimento. Operar nos mercados financeiros envolve risco de perda total do capital. Resultados passados não garantem resultados futuros. Leia o aviso completo.